A grande mentira

Há muito tempo atrás alguém nomeou que “tempo é dinheiro” e desde então as mesmas 24 horas que todo ser humano tem para viver seu dia virou motivo de ansiedade para a maioria e de transgressão para outros que resolvem andar fora do relógio social.

Cá estou eu com meus míseros e preciosos 30 minutos do dia que tenho para não fazer nada (e eu sei que isso é um privilégio), e ao invés de apreciar a bela cerejeira da calçada que está florida, já perdendo suas flores, e que só dará flores novamente ano que vem, estou cá sentada para te contar o seguinte: eu descobri a grande mentira!

Estive em alguns cursos nos últimos meses em busca de afinação pessoal. Como caminhar no caos da vida sem perder o equilíbrio entre tantas demandas e me realizar? Na maioria deles, vi pessoas interagindo, trocando ideias e me senti muito inspirada, mas comecei a sentir calafrios ao ver que além dos encontros reais as pessoas já se comprometiam a continuar essas relações trocando e-mails, informações via Facebook, áudios via Whatsapp e interações em outras redes.

Partindo da premissa de que “tempo é dinheiro” e que “quem tem contato, tem tudo” com a internet ligada dia e noite, na palma da mão, dormir e fechar aos domingos parece mesmo contraproducente. Com isso cá estamos para atender a demanda capitalista moderna utópica que é a de se disponibilizar o tempo inteiro, toda hora, em todos os lugares, o que é uma grande mentira. Fingir que temos tanto tempo livre para interagir é de longe a melhor estratégia para fazer mais dinheiro, produzir mais ou conquistar felicidade.

Vejo pessoas angustiadas correndo para enfiar tudo no tempo, conectadas mais na vida virtual do que na real e frustradas por não darem conta de todas as relações que gostariam de cuidar. Me incluo nesse grupo de pessoas. Temos a internet para compartilharmos e consumirmos conteúdo do mundo inteiro, o dia inteiro, e mesmo assim a maioria das pessoas ainda interage virtualmente com a mesma vila que a cerca na vida real, o que me faz ver a imaturidade do uso da ferramenta. Deixamos de aproveitar o todo e nos desconectamos dos afetos reais.

Temos nossas crianças sem relógios, com suas concentrações tão maravilhosas que até xixi esquecem de fazer por estarem imersas em algo que as atrai, e cá estamos buscando o mindulfness pra tentar achar fluxo no caos que invade a cabeça e quem sabe uma respiração mais longa.

Ao invés de nos libertarmos do “ao vivo” e valorizarmos a liberdade de respeitar nosso próprio relógio, estamos disponíveis alimentando a ansiedade de estarmos conectados o tempo inteiro nesse mundo virtual enquanto a vida passa, a pele enruga, os filhos crescem e você, onde esteve? Olhando pro whatsapp.

Somos jovens inexperientes com uma poderosa ferramenta técnica e tecnológica nas mãos o dia inteiro, temos o poder de dizer como é que vamos usar toda a tecnologia a nosso favor, descobrir como conquistar um lugar nos algoritmos e ainda assim conseguirmos viver uma vida presente e o que mais cada um quiser viver.

Escolhi fazer minha parte e não acreditar mais na mentira que me contam as pessoas que dizem que estão disponíveis a qualquer hora e ajudar a mim e a elas a respeitarem seus tempos, suas suas individualidades, seus offlines. Como? Venho aqui semana que vem pra contar, agora preciso desligar a chaleira, pegar uns minutos de sol nesse dia frio e apreciar a cerejeira.

Por mais abraços

apoio

Querida rede de apoio,

agora a noite entrei pela sua porta pois aceitei o convite de me sentar com outras três mulheres para falar sobre você, pois você confia que te conheço bem.

Entrei depois de dias intensos e algumas horas de sono, e sabia que estar ali era o melhor que poderia fazer por mim.

Recebi um abraço que já sabia que precisava. Abraço de quem já nadou no mar de emoções que me afogaram, que veio como terra firme para que eu pudesse respirar fundo, desabar, chorar, aliviar.

Ao meu lado sentadas na sua mesa de jantar elas esperavam pacientemente eu me levantar. Sem pressa, sem intervir, resolver, socorrer, me dizer o que fazer ou sentir.

Nas lágrimas os medos do meu afogamento se foram em forma de rio dos olhos ao coração, lugar onde as emoções acolhidas encontram lugar.

Meus olhos então quiseram encontrar os delas para falarmos de você. Comentamos que você é fundamental grande ou pequena, que pode mudar em diferentes momentos da vida e que você planta mudas que podem crescer em muitos outros lugares, e que quando isso acontece, é maravilhoso! Que você é necessária para todas as pessoas, independente de qualquer agrupamento que possa ser feito, e que assim você potencializa transformações muito necessárias e difíceis de se viver só. Que você pode ser útil tanto com evidência científica ou com crença individual, que não tem solução mas que soluciona através da informação, seja virtual ou presencialmente. E mesmo que seja por uma hora, uma frase, toda semana, uma vez por mês ou num domingo à noite numa mesa de jantar, é fundamental estar com você.

Falaríamos de você por muitas horas mais, mas o descanso se fez necessário. Antes de ir embora você estendeu a mão para sempre que eu precisar de apoio e me valorizou por ter ido te dar minha energia, logo hoje que achei que não tinha nenhuma.

Te escrevo pois não poderia ir dormir sem te agradecer.

Se você confia que eu sei muito sobre você é porque reconhece o quanto valorizo sua presença em minha vida e o quanto preciso da sua terra firme para me afogar em mim.

Muito obrigada as minhas pequenas e enormes redes de apoio,

com amor e gratidão,

Janie Paula.

Família Imperial

Série de 14 episódios produzida pela Primo Filmes e Globo Filmes para a Tv Futura.

Direção geral de Cao Hamburger e direção de cena de Gabriel Barros, Teodoro Poppovic e Rafael Gomes.

Neste projeto fiz assistência de direção da pré-produção e produção dos 6 primeiros capítulos da série, que foram dirigidas pelo Gabriel Barros.

Todos os episódios: http://www.youtube.com/user/familiaimperialserie